Contos


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Fatos e cacos: origem de uma alma trincada
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Apenas a metade


Quatro anos de idade. Uma tarde como todas as outras. Um fato inesperado. Um pequeno caminhão para na frente da casa. Os móveis começam a ser carregados para o caminhão. Mas não todos. Apenas a metade de cada cômodo. Coisa estranha. Dos quartos, saíram os guarda-roupas, permaneceram as camas. Da cozinha, saíram a geladeira e o armário, permaneceram o fogão, a mesa e as cadeiras. Da sala, saíram a prateleira e as poltronas, permaneceu o sofá. De meus pais, saiu meu pai, permaneceu minha mãe. De minha irmã e eu, permanecemos nós duas. Tudo isso assim. Sem barulho. Sem explicações (prévias nem tardias). Sem perguntas também.

Curiosidade. Observação. Dedução. Meu pai, agachado na varanda da frente, abraça a mim e a minha irmã. Primeiro ela, depois eu. Nenhuma palavra. Somente o aperto do abraço. Finalmente sobe no caminhão a última metade que faltava. O silêncio aumenta. O caminhão começa a deslizar pelo asfalto, sem nenhum ruído. Afasta-se. Mais... Mais... Mais... Desaparece.


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 Viagem de ida



Viagem de ônibus. Estrada de chão. Terra vermelha. Sol quente. Poeira. Muita poeira. Dos dois lados da estrada, a mesma paisagem: lavouras, pastos, árvores... Enjoo. Náuseas. Vômito. A paisagem começa a mudar: uma casa aqui, outra ali, várias acolá. Cidade pequena.

Finalmente, a chácara, uma fatia remanescente do campo, na área urbana: curral, bois no pasto, canavial lá no fundo, pomar, horta, galinheiro, paiol, chiqueiro... Mais perto da rua, um pequeno jardim. Na calçada, um enorme flamboyant florido. Na casa, meus avós.

Cumprimentos. A bênção. Alegria. Risos.

Almoço com sabor de carinho.

Liberdade...

Fim da tarde. Minha mãe começa a se arrumar. Eu e minha irmã continuamos a brincar, ignoradas de qualquer novidade. Aproxima-se a hora do último ônibus de volta à cidade vizinha. Minha avó acompanha-nos até o ponto.

O ônibus chega. Minha mãe despede-se. Parte. Voltamos para casa.
Apenas minha avó, minha irmã e eu...



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O burrinho



Já tenho seis anos. Moro com meus avós. Não vejo meu pai nem tenho notícias dele desde que se foi com a metade dos móveis, no pequeno caminhão. Minha mãe mora na cidade vizinha, sozinha. Precisa trabalhar... Não conheço nenhuma outra criança que more com os avós, apenas eu e minha irmã. Mas não falo disso com ninguém. Nada me perguntam... Ainda bem!

Tenho uma amiga da minha idade: Priscila. Sua casa é perto. Fica a um quarteirão  da chácara de meu avô. Brincamos todos os dias. Ela e as irmãs moram com o pai e mãe... Um dia, a mãe dela viaja. Na volta, traz presentes para as filhas. E um para mim. Priscila corre para me entregar. Volta rápido. Já está escuro. Fico feliz. Devo ser um pouco filha da mãe dela também...

É um livro com figuras para colorir. Que legal!... Minha avó deixa-me pintar a primeira página antes de dormir. É um burrinho quase do tamanho da folha! Toda prosa, pego minha caixa de lápis de cor. Vou pintá-lo de preto. Vai ficar igualzinho ao do meu avô...

Aproximo a lamparina. Não quero um risquinho fora da linha. Pinto com força. Não o quero cinzento. Tem de ficar bem preto. Demoro um pouco. Não tenho prática... Enfim, termino.  — Olhe, vó, não está lindo?!  Diz que está sim. Durmo contente...

Manhã seguinte. Acordo. Lembro-me do desenho. Corro para pegá-lo. Quero vê-lo de novo, mostrá-lo para o meu avô.  Abro o livro depressa. Não acredito... O que aconteceu?!... Meu burrinho dormiu preto e acordou azul marinho!!!

  

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Viagem de volta



Sete anos. Acabo de concluir a primeira série primária. Continuo morando com meus avós. Já faz dois anos... Como o tempo passa rápido! Gosto muito de meu avô e de minha avó. Sinto-me segura com eles. Nada de mal acontece ali. Mas continuo me escondendo atrás do paiol para chorar. Choro muito. Não é choro de manha. É de dor. Dor profunda... Isso acontece todos os domingos, dia de visita da minha mãe. Reprimo as lágrimas o dia todo. Não choro na frente dela. Somente depois que ela se vai. Ela nem desconfia disso... Durante a semana sou feliz.

Mais um domingo chega. Com ele, minha mãe novamente. Como sempre, ela conversa e ri muito. Somente com os adultos, visitas costumeiras. Somente coisas banais... Mostra fotos. Sempre bem vestida. O cabelo sempre arrumado. As unhas pintadas. Os lugares, muito bonitos. Sempre sozinha... Mas quem tira as fotos?... Disso ela nunca fala... Já pronta para sair, minha avó oferece-lhe um petisco caseiro. Não pode mais comer. Já passou o batom...

Outro domingo. Tudo aparentemente igual. O dia passa. O horário do ônibus se aproxima. Estamos prontas para acompanharmos minha mãe até o ponto. Tudo como sempre... O ônibus já está lá.  É preciso pressa. Com a maior naturalidade, minha mãe manda-nos subir primeiro. Em seguida sobe ela. Nenhuma explicação... O ônibus parte. Com ele, meu coração. Olho pela janela, chorando... 

No ponto ficou minha avó. Chorando também...



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Criança também pensa


Quase oito anos de idade. Dois anos morando com meus avós. Chácara. Simplicidade. Liberdade. Aconchego. Fortes laços afetivos. De repente, voltamos a morar com minha mãe. Ela decide tudo sozinha. Nada pergunta...

Estranho a casa. Muito chique. Pelo menos por dentro. Chão brilhando. Passadeiras. Tapete. Dá até medo de pisar... Tem televisão, geladeira, fogão a gás, lâmpadas, banheiro dentro de casa... Mas sinto cheiro de coisa errada. Só não sei o que é. Também não pergunto...

Os dias passam. Continuo a sentir o mesmo cheiro. Às vezes, um carro para em frente a casa. Alguém entrega alguma coisa. Cobertores novos. Xadrezes de verde e branco. Um para mim, outro para minha irmã. Liquidificador... E outras coisas de que não me lembro agora. A cada entrega, fico mais intrigada. De onde vem tudo isso? Quem compra? Minha mãe não tem muito dinheiro... Ela é costureira...

Uma noite, alguém bate palmas no portão. Minha mãe não estranha. Já sabe quem é. Atende. Com ela, entra um senhor com cara de avô. Mas não do meu avô! Traz um embrulho feito com papel cinzento. Igual ao da padaria. Ele sorri, meio sem graça. Coloca o embrulho na mesinha de centro. Abre-o. Chocolates variados. Entre eles, “Diamante Negro”. Nunca mais me esqueço deles...

Como um pouquinho. Nem sinto o gosto... Minha mãe manda-nos dar boa noite ao homem. Eu e minha irmã obedecemos. Leva-nos, então, para o quarto. Hora de criança dormir. Ele espera por ela na sala. Descubro de onde vem o cheiro de coisa errada. Mas nada falo.

Minha mãe acha que criança não pensa...



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Morte sem cadáver



Cresci longe de meu pai. Ainda na infância, sofri com a ausência ( ainda que temporária) de minha mãe também. Consequências disso: mágoas, ressentimentos, carência afetiva...

O tempo passou, mas as sequelas não. Tive convicção disso quando me tornei mãe e optei por criar minha filha sozinha. Sabia que essa opção seria problemática. Minha maior preocupação era com o equilíbrio emocional dela.

Desde bebê, tentei poupá-la de minha ausência. Sem ela, saía apenas para trabalhar. Surgiram novos relacionamentos. A presença dela era indiscutível. Quem se interessasse por mim tinha de entender que eu não existia sozinha. Ela era parte integrante de mim.

Casei-me. Tive mais um casal de filhos. Emocionalmente, minha preocupação continuava a ser ela. Não suportava a ideia de que ela pudesse sofrer como eu havia sofrido. Nesse aspecto, não temia por meus outros filhos. Tinham uma família completa: pai, mãe, irmãos, todos juntos.

Tudo parecia correr bem até que ela atingiu a adolescência. Os conflitos afloraram. Seu problema era comigo. Relacionava-se bem com os irmãos e com o padrasto a quem chamava espontaneamente de pai, desde os seis anos de idade. Era a mim que ela queria atingir. E conseguia. Eu revidava. Tentava impor-me. Queria que me respeitasse não só como mãe, mas também como ser humano. Não conseguia.

A convivência foi se tornando cada vez mais difícil. Ela não se deixava dobrar. Eu também não. Para piorar ainda mais, ela contava com o apoio da avó. Minha mãe conspirava contra mim. A maioridade chegou. Dois meses depois, um novo desentendimento. Momento oportuno para cumprir o que planejava há tempos. Saiu de casa. Foi morar com a avó...

Golpe certeiro. Facada profunda. Meu coração sangrou desesperadamente. Dor na alma... Vazio no peito... Sensação de morte... Morte sem cadáver...




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2 comentários:

  1. Nossa... Perdi a conta de quantas vezes deitei os olhos em cada palavra deste fluxo...
    Fisgante, viu?...

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  2. Obrigada, Else! Sua opinião é muito importante para mim!

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